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12 de janeiro de 2018 às 13:23

Senhores Passageiros: Em livro, brasileiro revisita a história de Kai Tak, o 'aeroporto mais fascinante do mundo'

De um lado, as montanhas e os prédios de Hong Kong. Do outro, as águas da baía de Kowloon. No meio disso, um dos aeroportos mais movimentados do mundo e, nas palavras de Gianfranco Beting, "o mais fascinante". "Era um balé de aviões. Eles vinham pra cima

De um lado, as montanhas e os prédios de Hong Kong. Do outro, as águas da baía de Kowloon. No meio disso, um dos aeroportos mais movimentados do mundo e, nas palavras de Gianfranco Beting, “o mais fascinante”.

“Era um balé de aviões. Eles vinham pra cima da cidade, faziam essa curva fechadíssima a baixa altura, aviões enormes, das melhores e maiores companhias do mundo, incluindo a Varig. Os fotógrafos estavam lá embaixo só esperando pra capturar esses momentos.”

Beting foi um deles, em duas ocasiões. A primeira, em janeiro de 1997. “Cheguei depois de ter voado quase que metade do globo, deixei as malas no hotel e fui fotografar imediatamente, nem dormi”, lembra o paulistano de 54 anos —mais de 40 deles dedicados à aviação. Cofundador da Azul, hoje mora em Miami (EUA), onde mantém a consultoria Jetgroup. Em dezembro, ele recebeu a Folha para esta conversa durante uma visita a São Paulo.

“As pessoas sonhavam em ir pra Kai Tak fotografar e eu não era exceção.” Beting voltou em dezembro daquele ano e ficou até janeiro de 1998, tendo passado ao todo duas semanas na “Meca dos fotógrafos de aviação”.

Ele lembra com saudade da “guerra de torcida” entre os fotógrafos, empoleirados na escada de incêndio de um prédio residencial perto do aeroporto. “Era outra coisa saborosa. O fotógrafo holandês, quando vinha um KLM, falava: ‘Agora é o meu país’. Batia palma. E o alemão do lado falava: ‘Vai pousar mal, vai estourar o pneu’.”

Dos mais de 8.000 slides fotografados, ele selecionou 400 fotos para o livro “Kai Tak – O Aeroporto Mais Fascinante do Mundo”, lançado no fim do ano passado pela sua editora, a Beting Books, que também publicou seus outros livros sobre aviação, entre eles “Varig – Eterna Pioneira” e “Tango Bravo Alfa”, sobre a TransBrasil.

“Quando terminei de fotografar, há 20 anos, pensei: ‘Acho que um dia vou fazer um livro porque as fotos ficaram tão bacanas’. Nunca descartei fazer livros porque eles são a maior paixão da minha vida, acho que depois do Palmeiras. E de certa maneira sou um memorialista, aprendi com meu avô que era um super filatelista.”

ABRAÇADO PELA CIDADE

Kai Tak foi fundado em 1925, na época apenas um aeroclube e uma simples pista de terra. O entorno, área pantanosa e pouco valorizada de Hong Kong, ainda estava livre dos prédios.

O rápido crescimento da economia da cidade —território britânico até 1997— demandou a ampliação do aeroporto, que teve a pista prolongada em direção à baía. Enquanto isso, a cidade “abraçava” o terminal, com as construções chegando cada vez mais perto.

“Algo que servia perfeitamente para aeronaves de dois, três, quatro lugares, passou a ser disputado por aviões de cem lugares e depois até 400 lugares”, diz Beting. “Felizmente os poucos acidentes que aconteceram em Kai Tak nunca envolveram a queda de um avião sobre a cidade, e sim para o lado da baía. Infelizmente a gente não pode falar o mesmo de Congonhas.”

Kai Tak foi o destino da linha aérea regular mais longa a ser operada por uma companhia brasileira. O voo da Varig saía do Galeão, no Rio de Janeiro, e fazia escalas em Guarulhos, Joanesburgo e Bancoc antes de pousar em Hong Kong, quase 24 horas depois.

A transferência do controle da cidade do Reino Unido para a China, em julho de 1997, desestimulou grandes investimentos em Kai Tak em seus últimos anos, que já enfrentava limitações geográficas à sua expansão. No início dos anos 90, os chineses começaram os estudos para a construção de Chek Lap Kok, o atual aeroporto de Hong Kong, em uma ilha mais afastada do centro.

Kai Tak deixou de operar na madrugada de 6 de julho de 1998. Horas depois, o primeiro voo decolava de Chek Lap Kok. “A transição foi feita em uma noite só, o que por si só já valeria outro livro pra contar esse épico logístico: fechar um aeroporto à meia-noite e às 7 da manhã abrir o aeroporto em outro lugar”, afirma Beting. “Houve um comboio de materiais, esteiras, tratores, hangares, pessoas, máquinas, uma operação incrível e que deu certo.”

‘DISNEYLÂNDIA’

E hoje, haveria um aeroporto tão fascinante e desafiador quanto Kai Tak?

Beting cita o Santos Dumont, no Rio de Janeiro. “Ele tem características parecidas com Kai Tak, está no centro de uma grande cidade, rodeado por montanhas e pelo mar. Não é uma aproximação perigosa, mas exige cuidados. Você só pousa em Santos Dumont se tiver um treinamento específico.”

“Tem outros que eu acho muito bonitos, por exemplo o aeroporto de Saint-Barth, no Caribe, onde você pousa morro abaixo”, descreve Beting. “Outro caribenho famoso é St. Maarten, com uma praia bem ao lado da cabeceira da pista. Lukla, no Nepal, é um aeroporto no alto de uma montanha, considerado um dos mais críticos do mundo, Katmandu também é rodeado de montanhas.”

Mas Kai Tak, lembra o autor, somava uma característica única à sua posição geográfica: o volume e a diversidade de tráfego.

“Esses aeroportos que eu citei não têm tanto tráfego assim. São bonitos, mas pousam cinco, seis aviões por hora, se tanto. Em Kai Tak pousavam 50 aviões por hora. E aviões maravilhosos. Boeing 747, DC-10, os Airbus. Era uma Disneylândia.”

Fonte: FOLHA

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