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26 de janeiro de 2018 às 06:00

Nova biografia apresenta Karl Marx sem cair na tentação maniqueísta

RESUMO Biografia "Karl Marx: Grandeza e Ilusão" tem como maior mérito a reconstituição do ambiente em que se deu a formação intelectual do jovem Marx, fundamental para entender como ele passou a pensar o capitalismo. Livro ainda discute com competência fr

RESUMO Biografia "Karl Marx: Grandeza e Ilusão" tem como maior mérito a reconstituição do ambiente em que se deu a formação intelectual do jovem Marx, fundamental para entender como ele passou a pensar o capitalismo. Livro ainda discute com competência fracassos e insights do alemão, mas se concentra pouco em 'O Capital'.

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Os países desenvolvidos passaram por transformação espantosa a partir de 1700: a renda por habitante cresceu mais de 50 vezes e a expectativa de vida aumentou em 40 anos.

Para ter uma noção do imenso avanço, a dieta típica de um habitante de um país rico no começo do século 18, como a França, não era melhor do que a de um morador de um dos países mais pobres do mundo na segunda metade do século 20, como Ruanda. Esse notável desempenho, entretanto, não veio sem solavancos.

A transição para o capitalismo foi particularmente dolorosa. A rápida e desordenada urbanização e a superabundância de trabalhadores vindos do campo resultaram em salários baixos, condições sanitárias inadequadas, moradias precárias e proliferação de doenças transmissíveis.

Para a maioria da população nos países desenvolvidos, foi um período de retrocesso, com queda da expectativa de vida e de outros indicadores socioeconômicos.

A pobreza, antes escondida nos campos, tornou-se visível nas cidades, onde a degradação contrastava com um aumento da riqueza que parecia inexoravelmente restrito a poucos. Não surpreende que então tenham surgido movimentos bastante críticos ao capitalismo nascente.

Karl Marx (1818-83) foi o mais famoso dos intelectuais revolucionários do século 19, e sua vida é contada na biografia "Karl Marx: Grandeza e Ilusão" [Companhia das Letras, 784 págs., R$ 79,90], de Gareth Stedman Jones, ex-editor da revista "New Left Review".

O maior mérito da biografia talvez esteja na reconstituição do ambiente em que se deu a formação intelectual do jovem Marx. Quem já estudou o autor de "O Capital" e "Manifesto Comunista" sabe que as disputas em torno do legado de Hegel e a relação entre essas disputas e a política prussiana da época podem ser temas áridos.

Entretanto, são fundamentais para entender como o pensador alemão passou da discussão da religião como projeção de conflitos terrenos para a discussão do Estado como projeção de conflitos na sociedade civil, e daí para a discussão do capitalismo.

Ao reconstituir esses debates, Jones mostra como as ideias filosóficas radicais de emancipação do jovem Marx o acompanharam por toda a vida. Durante sua evolução intelectual, o pensador procurou conciliar essa visão emancipatória da juventude com a crítica do capitalismo, formulada muitos anos depois —e aqui ele fracassou.

Se o tratamento dado ao jovem Marx é cuidadoso, o livro como um todo apresenta-se desbalanceado. Jones poderia ter gasto menos espaço com querelas políticas menores e se concentrado no fundamental: a obra tardia e inconclusa de seu biografado, "O Capital".

ACERTOS

A análise econômica de Marx combina alguns momentos de impressionante percepção, para a época, com outros recheados de argumentos inconsistentes.

Começamos pelos melhores momentos. A maioria dos intelectuais de então associava a miséria urbana apenas à substituição da classe dominante. Onde antes havia os grandes senhores herdeiros do feudalismo, agora reinava a burguesia. Marx, porém, desde meados dos anos 1840, reconhecia que o capitalismo trazia algo além de uma nova forma de opressão.

Como escreveu Jones: "Karl foi o primeiro a evocar os poderes aparentemente ilimitados da economia moderna e o seu alcance verdadeiramente global. Foi o primeiro a mapear a assombrosa transformação produzida em menos de um século pelo surgimento de um mercado mundial e pelo desencadeamento das forças sem precedentes da indústria moderna".

Em "O Capital", Marx oferece uma explicação nova para o sucesso da nova ordem em produzir tantas inovações e aumento da produtividade: a concorrência.

Na medida em que um produtor individual seja capaz de introduzir uma mudança que reduza seus custos em relação aos demais produtores, ele obtém um retorno adicional (mais-valia extraordinária, no jargão de Marx). Esse ganho não é duradouro, pois logo seus concorrentes tentam copiá-lo. Mas o retorno, mesmo que temporário, estimula a inovação.

Esse argumento foi posteriormente difundido por Schumpeter e se tornou lugar-comum nos livros de economia.

Em outros momentos, entretanto, o pensador alemão erra feio.

ERROS

Seguindo uma variação do argumento dos economistas clássicos, Marx supõe que o valor das mercadorias é determinado pela quantidade de trabalho necessária à sua produção.

Os salários, por sua vez, são determinados pelo valor da cesta de bens necessários à subsistência dos trabalhadores. Os trabalhadores, porém, produzem mais do que o necessário à sua sobrevivência. A diferença é a mais-valia apropriada pelos donos dos meios de produção.

Segundo Marx, os ganhos de produtividade decorrentes da concorrência terminariam por reduzir a quantidade de trabalho utilizada na produção das mercadorias, aumentando a relação capital/trabalho. Como, para o autor de "O Capital", apenas o trabalho gera valor, o resultado seria a tendência à queda da taxa de lucro, que resultaria na crise do capitalismo.

Marx, entretanto, não consegue demonstrar analiticamente a sua conjectura. Para seu mérito, deve-se ressaltar que ele reconhece as dificuldades, ainda que fracasse sistematicamente ao tentar superá-las nos manuscritos do volume 3 de "O Capital".

Suas conjecturas sobre salários e lucros foram igualmente derrotadas pelos dados das principais economias desde 1900.

Os salários não permaneceram no nível de subsistência, mas cresceram com a produtividade do trabalho; a taxa de retorno do capital não apresentou tendência de queda ao longo do século 20, e sim permaneceu relativamente estável em meio a oscilações ocasionais. E o mesmo é verdade sobre as participações dos salários e da remuneração do capital na renda nacional dos países desenvolvidos.

Como se sabe, Marx se defrontou com problemas analíticos igualmente intransponíveis ao propor que a sua teoria do valor trabalho explicaria o preço das mercadorias.

Os manuscritos preparatórios de "O Capital" (os "Grundrisse") mostram que o plano inicial era muito ambicioso. Tratava-se de analisar o processo de construção social que resultou no capitalismo, na formação do Estado moderno e na constituição do mercado global, além de descrever a causa da sua crise inevitável: a trajetória de queda da taxa de lucro.

Dados os imensos problemas com os argumentos, não surpreende que Marx tenha revisto seu projeto original e decidido publicar, nos termos de Jones, "uma obra muito mais descritiva (...) do que em progressão dialética".

Jones também aponta, corretamente, que grande parte de "O Capital" se concentra na análise "factual do desenvolvimento e do estado das relações entre capital e trabalho, sobretudo na Inglaterra". Ele destaca a extraordinária quantidade de estatísticas, relatórios e informações da imprensa utilizados para descrever as condições de vida dos trabalhadores.

"O Capital" também inclui uma análise da produtividade crescente da agricultura, que tem como efeito colateral a expulsão dos camponeses para as cidades. Daí por que, para o biógrafo, Marx foi "um dos principais fundadores (...) do estudo sistemático de história social e econômica".

SEM DOGMATISMO

Resta-nos concordar com o diagnóstico de Jones: "Se 'O Capital' se tornou um marco no pensamento do século 19, não foi por ter identificado as 'leis do movimento' do capital. (...) [E]mbora tenha produzido um poderoso retrato da miséria (...) [e] das condições de vida dos trabalhadores (...), não conseguiu estabelecer uma ligação lógica e convincente entre o avanço da produção capitalista e a pauperização dos trabalhadores".

Finalmente, Jones acerta ao criticar a análise da democracia na reflexão geral de Marx. Quando o autor do "Manifesto Comunista" se depara com a formação dos primeiros partidos social-democratas, fica claro que sua visão de política era ainda demasiadamente influenciada pela Revolução Francesa.

Marx compreendeu que uma sociedade capitalista era completamente diferente de outros tipos de sociedade, mas não que uma sociedade democrática era completamente diferente de uma sem democracia, o que surpreende, dado seu sucesso como jornalista político.

Após a morte de Marx, as muitas inovações tecnológicas produzidas pela economia de mercado e a expansão das políticas públicas, em meio às pressões típicas nas democracias, permitiram a melhora da qualidade de vida já nas primeiras décadas do século 20.

De 1890 a 1930, a expectativa de vida aumentou 14 anos na Inglaterra e 16 anos nos Estados Unidos. Além disso, a jornada de trabalho caiu em cerca de 20 horas semanais de 1890 a 1990.

A desigualdade de renda na Inglaterra, medida pelo índice de Gini, caiu de 0,65, no começo do século 19, para 0,55, no começo do século 20, atingindo 0,32 em 1973 (quanto mais perto de zero, menor a desigualdade).

Crises ocasionais ocorreram, algumas muito severas, como a de 1929 e a de 2008, mas o resultado de longo prazo foi uma queda sem precedentes da pobreza.

Como Jones enfatiza, muitas das contradições e tensões presentes na reflexão do velho Marx desapareceram quando se constituiu o marxismo tal como o conhecemos. Foi Engels quem, no trabalho de edição das obras póstumas, e em especial em seu livro "Anti-Dühring", apresentou o marxismo como um sistema que deveria ser, para as ciências históricas, o que o darwinismo foi para a biologia.

Essa visão de um processo mecânico inevitável que levaria ao socialismo foi acolhida pelos socialistas alemães num período em que a repressão lhes dificultava a atuação política. Quando puderam disputar eleições, tiveram enorme sucesso, e essa versão do marxismo difundiu-se pela Europa, inclusive na Rússia.

Como sabemos, mais tarde os socialistas alemães começariam a revisão crítica do legado marxista, mas, àquela altura, a história na Rússia já seguia outro caminho.

A biografia de Gareth Stedman Jones discute com competência tanto os fracassos quanto os insights de Karl Marx. Quem sabe esse resgate possa colaborar para enfrentar a narrativa cheia de som e fúria da política contemporânea.

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CELSO ROCHA DE BARROS, 44, colunista da Folha, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford.

MARCOS LISBOA, 53, economista, é presidente do Insper e colunista da Folha.

Fonte: FOLHA

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