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13 de junho de 2018 às 07:00

Nervosa abraça o death metal e soa cada vez mais furiosa

Marcelo Moreira

Nervosa (FOTO: DIVULGAÇÃO)

As meninas estão furiosas. O que era agressivo ficou mais violento, mais insano e mais tenebroso. A banda Nervosa radicalizou e abraçou o death metal em seu novo álbum, “Downfall of Mankind”, que está sendo lançado nesta semana – europeus e japoneses já estão curtindo o álbum há mês.

O trio de meninas de São Paulo navega na contramão de um mercado cada vez mais restrito. Se uma banda underground outrora bem-sucedida, como o Matanza, encerra as atividades por conta de problemas internos e dificuldades de mercado, então podemos deduzir que a coisa para o heavy metal está bem mais complicada.

As meninas estão se dando bem, mas não significa que elas atingiram o olimpo. Com uma demanda crescente de shows internacionais, a banda ainda tem de ralar bastante para garantir o espaço que conquistou.

“Cada vez mais tocamos no Brasil e no exterior, e cada vez mais temos de nos esforçar e matar vários leões por dia. Não dá para reclamar, mas tem horas que as coisas ficam difíceis”, diz a guitarrista Prika Amaral.

Na audição para a imprensa do novo álbum, no Espaço Som, em São Paulo, o terceiro da carreira, a moça se referia a alguns problemas na estrada, como o roubo de equipamentos e merchandising nos Estados Unidos, em uma recente turnê.

“A gente pensa que só aqui acontece isso, mas no exterior também é complicado. Rouparam equipamentos e 250 cópias do nosso primeiro CD, ‘Victim Yourself’. É o tipo de material que só é vendido em shows. O que o cara que roubou esses CDs vai fazer? Vender aonde?”, contou Prika com bom humor.

A Nervosa faz parte de um grupo de bandas pesadas brasileiras que busca mercado e reconhecimento no exterior para compensar a retração no Brasil, que alguns músicos dizer ser a pior crise do rock na história brasileira.

É o caso do quarteto paulistano Torture Squad, que fez uma bem-sucedida turnê sul-americana neste primeiro semestre, e de outro quarteto, os santistas do Shadowside, que estão em extenso giro norte-americano.

As garotas estão fazendo uma série de shows no Estado de São Paulo com a banda Havok e em setembro farão a abertura para os alemães do Destruction em uma turnê europeia.

“Nós meio que fomos apadrinhadas pelo Destruction. O Schmier [baixista e vocalista] adorou o nosso som desde que nos conheceu e desde então se tornou amigo da banda. Sempre que pode dá uma força e novamente faremos turn~e juntos. Não poderia ser melhor”, diz a baixista e vocalista e baixista Fernanda Lira.

Uma usina de energia e de alto astral, ela comenta sobre a atual fase da banda: “Curto demais o que está rolando, mas a cada passo de nossa evolução, o trabalho dobra. A Luana Dametto[baterista] se adaptou rapidamente à banda quando entrou e facilitou o processo.”

Sobre o peso descomunal das novas músicas, ainda mais agressivas, ela afirma que a construção de “Downfall of Mankind” não obedeceu a fórmulas pré-concebidas. “Compusemos de forma natural e as canções foram ‘pedindo’ maior agressividade. Os timbres de guitarra estão mais quentes, digamos assim. Tanto eu como a Prika pesquisamos as sonoridades e acho que conseguimos um equilíbrio legal”.

Elas estão mais furiosas, mas flertando com o death metal? “Não foi intencional, mas acabou soando assim em algumas músicas, não teve jeito (risos). A agressividade é uma de nossas características. Continuamos chutando tudo, né?”

Se a porrada já tinha sido grande com o álbum “Agony”, de 2015, a desgraceira subiu de tom no novo CD, que é o melhor dos três até agora.

A crítica social e política permeia as letras, mas uma música chama bastante a atenção, a única em português. E Fernanda Lira se mostra orgulhosa de “Cultura do estupro”.

“Foi uma feliz parceria com o João Gordo, dos Ratos de Porão. Ele escreveu a letra e foi preciso e certeiro. A música transborda indignação e tem o tom feminista necessário para que haja a denúncia. Eu sou feminista, a banda é, e estamos sempre pronta para gritar contra a violência, a injustiça e o feminicídio”, diz Fernanda.

“Fear, Violence and Massacre”, “Never Forget, Never Repeat” e “Kill the Silence” são os destaques do bom álbum da Nervosa. Não é algo surpreendente, mas mostra uma alta qualidade.

Prika Amaral alterna momentos inspirados nos solos com uma usina de riffs bem executados. Boa guitarrista, mostra uma técnica mais apurada, com muitos méritos na busca por novos timbres e por mais peso. Soa mais rápida, mais violenta, mais pesada. Com o baixo mais presente, quase como uma base, o som que já era encorpado ganha mais volume.

Se Brendan Duffey, o produtor de “Agony”, deixou o conjunto mais homogêneo, como uma sonoridade “sólida”, ou seja, compacta e sem muitas brechas, desta vez o trio optou por algo mais orgânico, com as guitarras mais na cara, com tudo bem alto, na cara.

“Downfall of Mankind” é uma obra que impulsiona definitivamente a banda para o primeiro time das novas bandas de música extrema da atualidade.

A perseverança calcada na brutalidade é um dos fatores dos sucesso da Nervosa, algo que certamente aprenderam com o veterano e igualmente brutal Krisiun. Portanto, que aproveitemos cada segundo do terremoto sonoro que é o novo álbum.

Fonte: UOL

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