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13 de maro de 2018 às 02:00

Mesmo com os sofrimentos da vida, feirante vê beleza em ser mulher

Ainda que seu nome do RG seja Josenice Batista Queiroz, as pessoas da feira do viaduto Major Quedinho, no centro de São Paulo, a chamam de Dona Maria. "É um apelido, porque eu sofri tanto quanto a mãe de Jesus. Mas não cheguei a ter um filho."

Ainda que seu nome do RG seja Josenice Batista Queiroz, as pessoas da feira do viaduto Major Quedinho, no centro de São Paulo, a chamam de Dona Maria. "É um apelido, porque eu sofri tanto quanto a mãe de Jesus. Mas não cheguei a ter um filho."

Nice migrou da Bahia para São Paulo ainda criança, depois de perder a família. Viveu por décadas na Zona Sul, como empregada de uma mulher a quem tinha como uma mãe. "Ela me dava carinho e me protegia."

Seu documento diz que ela tem 60 anos. "Mas minha patroa dizia que eu tenho 51." Começou o único namoro da sua vida na época em que sua patroa estava doente. "Eu precisava cuidar dela, não podia sair de casa. E, quando descobri, ele estava com outra. Perguntei: 'Por que você fez isso comigo?'."

Depois que sua chefe morreu, ela passou a catar latinhas nas ruas da Consolação. Quase teve de parar porque estava ficando cega. Um dono de restaurantes do centro pagou sua cirurgia de catarata, mas um problema no pé a obriga a usar uma bota ortopédica, que cobre com uma sacola de supermercado. "Eu acho a vida bonita, sabe? Fácil não é, mas é bonita."

3h Josenice acorda na sua casa, em Guaianazes. Ora e come duas bananas.

4h Sai de casa e pega, de carona, o primeiro de dois ônibus, que consomem uma hora e meia para deixá-la no centro. "O sonho da minha vida é morar no centro. Fui assaltada perto de casa no ano passado. Graças a Deus eles viram que eu era mais pobre que eles"

6h Em dias de semana, ela começa a recolher latas e recicláveis nas ruas da Bela Vista. No domingo, pega limões com o dono de uma barraca da feira e sai vendendo a pé pelas cercanias

8h Enquanto ela anda pela feira, vendendo o meia dúzia de limões por R$ 5, alguns feirantes gritam: "Dona Nice!", "Dona Maria!" e "Pé de Pano!". "É por causa do meu pé ruim. Eles são maus, mas eu não ligo."

12h Todos os limões foram vendidos. Ela vai ajudar em uma barraca que vende frutas, para ganhar mais R$ 15. "Todo dia podia ser domingo."

14h Nos dias de semana, ela vende as latas que recolheu. Chega a tirar R$ 13 em um dia. Aos domingos, a quantia sobe para até R$ 45. Ela se senta no meio-fio para descansar antes de voltar para casa. Começa a cantar uma música de Roberto Carlos: "As flores do jardim da nossa casa. Morreram de saudades de você."

Fonte: FOLHA

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