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14 de janeiro de 2018 às 02:00

Homem-deus: Frankenstein faz 200 anos

Em meados do século 19, o naturalista americano Ralph Waldo Emerson escreveu em seu ensaio Natureza: "O homem é um deus em ruínas".

Em meados do século 19, o naturalista americano Ralph Waldo Emerson escreveu em seu ensaio Natureza: "O homem é um deus em ruínas".

Quando nossos antepassados contemplaram pela primeira vez a dimensão do divino –e isso pode ter ocorrido ainda antes do Homo sapiens, com os Neandertais– causaram uma ruptura entre a condição humana e o eterno.

Desde então, termos consciência de nossa mortalidade, e o sofrimento que vem com a perda de entes queridos tem sido nossa benção e nossa maldição.

Em 1818, Mary Shelley publicou a primeira edição de seu romance gótico "Frankenstein, ou o Prometeu Moderno".

Com apenas 21 anos, jamais poderia imaginar que sua obra se tornaria uma das mais famosas na história da literatura. Desde sua publicação, já são mais de 300 edições do romance e ao menos 90 filmes, fora inúmeros livros e ensaios acadêmicos.

A origem do livro é quase que legendária. Numa noite tempestuosa de verão, em junho de 1816, Shelley, seu marido e intelectual Percy Bysshe Shelley, e seu amigo e grande poeta, Lord Byron, estavam numa mansão às margens do Lago Genebra, na Suíça, chocados com a força da natureza. Para passar o tempo, pensaram numa competição: venceria quem escrevesse a história mais macabra.

A morte parecia perseguir a jovem Mary Shelley. Em março de 1815, perdeu sua filha apenas algumas semanas após o parto. A perda do bebê traumatizou Mary profundamente, que sofria com visões do bebê morto. Num sonho, viu sua filha morta ser ressuscitada, após ser massageada vigorosamente em frente ao fogo da lareira. No romance "Frankenstein", a massagem é substituída por correntes elétricas passando pelo corpo.

Shelley sabia dos experimentos de Luigi Galvani e Alessandro Volta, explorando a conexão entre a eletricidade e a contração muscular. Usando a ciência de ponta de sua época, construiu um conto caucionário, que explora os perigos da relação entre a ciência e o poder.

(O leitor interessado pode consultar meu livro "Criação Imperfeita ", no qual, nos capítulos 37 e 38, conto essa história em detalhes.)

A ciência pode ir longe demais na busca pelo conhecimento?

Eis o que Shelley escreveu no prefácio da terceira edição de sua obra, publicada em outubro de 1831: "Vi o pálido estudante das artes insólitas ajoelhado perante a coisa que havia criado. Vi o fantasma hediondo deitado e, após a ação de algum engenho poderoso, mostrar sinais de vida, movendo-se com dificuldade, semivivo. Minha história tem que aterrorizar o leitor, pois é supremamente terrível o efeito de qualquer atividade humana que tente zombar do grandioso mecanismo do Criador. O sucesso apavoraria o artista, que abandonaria sua criação medonha, esperando que, sozinha, a pequena centelha de vida que lhe dera se apagaria".

O cientista foi longe demais em sua invenção, "zombando" do poder divino ao tentar recriar a vida: o homem tentando ser deus. Ao escrever a obra, Shelley parece buscar por uma espécie de cura, meditando sobre a morte da filha, abandonando a esperança de tê-la de volta em seus braços através de alguma intervenção científica.

A mensagem é clara: a morte tem que ser aceita como sendo final; a criatura ressuscitada não é humana, flutuando entre o viver e o não-viver, poderosa como um deus, mas profundamente solitária, abandonada pelo seu criador. (E não é esta a condição humana?)

Avançando 200 anos, a ciência de ponta da nossa época combina a eletricidade, a tecnologia digital e a genética. Muito mudou desde Galvani e Volta. Mas não a esperança de muitos de que a ciência poderá driblar a morte, criando uma espécie de imortalidade, indo além da fragilidade do corpo.

Os trans-humanistas –pessoas que buscam criar um ciborgue, um híbrido entre o humano e as tecnologias digitais– acreditam que isso ocorrerá em breve. Possivelmente, através da clonagem genética, ou numa transferência da informação que existe em seu cérebro –capturada no arranjo de seus neurônios e de suas conexões sinápticas– para uma máquina capaz de "reacendê-la", por assim dizer, tornando você, a sua essência, uma espécie de criatura digital que poderá passar de máquina em máquina como um programa de computador: a versão digital da ressurreição!

O inventor e autor Ray Kurzweil prevê a chegada da "singularidade" –o dia em que máquinas inteligentes sobrepujarão os humanos– em torno de 2040. Para tal, extrapola o crescimento da tecnologia, em particular, a capacidade de processamento de dados em computadores, concluindo que, em breve, computadores poderão simular o cérebro humano. Com isso, Kurzweil prevê a emergência de uma consciência digital.

Obviamente, esse tipo de extrapolação é bem superficial, dado que não podemos prever o avanço da tecnologia como se fosse uma lei da natureza. Também não temos a menor ideia do que significa transferir a informação de um cérebro humano para uma máquina, ou se esse tipo de operação faz sentido. Pouco sabemos da consciência humana.

Ainda bem. Mary Shelley escreveu sobre os perigos de estender a ciência a domínios donde temos pouco, ou nenhum, controle. Victor Frankenstein arrependeu-se do que criou, e o livro termina tragicamente.

A pesquisa científica é irreversível. Ideias não podem ser apagadas por completo, mesmo quando têm consequências éticas terríveis. Alguém, ou algum grupo, irá explorá-las para seu próprio benefício. Assim é a natureza humana.

Talvez o melhor modo de celebrar o bicentenário de "Frankenstein" seja a criação de uma organização internacional com a missão de criar salvaguardas para esse tipo de pesquisa, incluindo a modificação intencional do genoma humano.

Por exemplo, a nova tecnologia conhecida como Crispr, capaz de editar o genoma afetando a ação de genes específicos. Como muitas inovações científicas, essa tecnologia tem enorme potencial, tanto para o bem (na cura de doenças genéticas) como para o mal (na criação de animais e mesmo semi-humanos com características diversas.) Ao nível mais extremo, em princípio é até mesmo capaz de modificar a espécie humana como um todo, a vingança final de Frankenstein.

Juntamente com a possibilidade e a ameaça da inteligência artificial, não é à toa que a obra de Mary Shelley continua sendo tão influente. Todos deviam lê-la e assimilar suas lições. Lembre-se do que aconteceu com Prometeu.

Fonte: FOLHA

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