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27 de janeiro de 2018 às 06:00

Heróis de Franz Kafka são sempre os mesmos e refletem medos do escritor

RESUMO Escritor que fez a tradução de "Blumfeld, um Solteirão de Mais Idade e Outras Histórias", nova coletânea com textos inéditos de Kafka, escreve sobre as similaridades entre os diversos protagonistas do autor tcheco, marcados pelas mesmas vicissitude

RESUMO Escritor que fez a tradução de "Blumfeld, um Solteirão de Mais Idade e Outras Histórias", nova coletânea com textos inéditos de Kafka, escreve sobre as similaridades entre os diversos protagonistas do autor tcheco, marcados pelas mesmas vicissitudes, ausência de perspectivas e impossibilidade de se adequar ao mundo. A "Ilustríssima" adianta também dois contos da coletânea, a ser lançada em fevereiro.

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Quando é uma camundonga ou quando é um cão, quando é um solteirão ou um pai de família, um médico rural ou um professor de aldeia, um comerciante ou um vizinho, Sancho Pança ou Bucéfalo, Prometeu ou Posídon, um pião ou o filósofo que o persegue, um índio ou um campeão de natação que não sabe nadar, o herói de Franz Kafka (1883-1924) é sempre o mesmo. Kafka é sempre o mesmo.

Não importa sequer o gênero: em romances, contos, diários e cartas, Kafka é sempre o mesmo, marcado pelas mesmas vicissitudes, ausência de perspectivas e impossibilidade de se adequar ao mundo.

Até num aforismo Kafka se confunde de maneira lúdica e cheia de negaças com seu personagem eternamente igual: "Há quem negue a existência das desgraças apontando para o sol; ele nega a existência do sol apontando para as desgraças". "Ele" é sempre Kafka.

A coletânea "Blumfeld, um Solteirão de Mais Idade e Outras Histórias", que a Civilização Brasileira lança em fevereiro, corrobora essa tese. O livro traz "O Guarda da Cripta" —único drama escrito por Kafka, inédito no Brasil— e mais 35 contos de sua autoria, todos com um traço em comum: títulos que apresentam o personagem principal (ou aquilo que o provoca).

O conto que dá nome à coletânea, "Blumfeld, um Solteirão...", faz jus ao papel ao abordar essa figura tão cara a Kafka —são tantos os solteirões em sua obra. E não somente na ficção: o próprio autor —que, como sempre, aponta o dedo para si mesmo na narrativa— rompeu quatro noivados.

Foi o solteirão que tentou, insistiu, mas enfim cedeu à convicção de que sua obra dependia de não se entregar a uma vida em família.

Mas a solteirice tampouco é solução, e "Blumfeld" traz um protagonista com dificuldades na vida privada e profissional a quem, talvez, não tenha restado nada a não ser bater na testa, num misto de pessimismo, inércia e burrice, e dizer: "Por que eu fiz uma coisa dessas?".

No mundo de Kafka, toda condição é perigosa.

Em "Investigações de um Cão", o cão narrador é incapaz de reconhecer o pressuposto mais básico de sua condição —a existência dos humanos— e está, assim, fadado ao fracasso desde o início. Ele recebe alimentos de uma mão, passa de um colo para outro, frequenta um circo; vive com os humanos, mas não percebe a existência deles e, por isso, não compreende o mundo.

Já "Desejo de Ser Índio" leva isso a outro grau, pois o questionamento (ou a dispensa) do que é concreto e compreensível torna tudo ainda menos seguro. O herói do miniconto, assim que se livra das esporas e das rédeas, vê que também se vão a cabeça e o pescoço do cavalo, que passa a quase voar, sem que ele tenha onde se agarrar.

Para Kafka, até a volição pueril pode virar um pesadelo adulto, pois, ao dispensar o que está à mão para viver a vida dos despojados, passamos a pairar, inseguros, no vazio absoluto, ao léu.

SUBSTITUIÇÕES

É, aliás, comum nos contos de Kafka que os personagens sejam substituídos à sua revelia e sem se darem conta de que um determinado processo já começou —como no quase poema "O Timoneiro", em que o protagonista é retirado aos empurrões, sem qualquer explicação, de sua posição no timão.

E, pior, ninguém se preocupa: a dor de ver outro em seu lugar é apenas do substituído, o mundo não a percebe.

Mas há também o homem buscador, que esboça alguma atividade ou reação e a quem tudo estorva. Até a natureza se volta contra ele, como faz a neve em "O Médico Rural" e "O Professor da Aldeia" -e até no início de "O Castelo", romance que não integra a coletânea, mas que carrega o DNA de Kafka.

De fato, as obras mais conhecidas do autor —os romances "A Metamorfose", "O Processo" e "O Castelo"—, embora não apresentem o protagonista no título, também poderiam fazer parte dessa antologia, já que os "heróis" Gregor Samsa, Josef K e K. são também iguais em sua falta de rumo e orfandade metafísica em um mundo que não faz mais sentido.

Já "O Professor da Aldeia" parece um sucedâneo do escrivão Bartleby de Melville: alguém que optou por silenciar e se imobilizar aos poucos, já que não é ouvido mesmo. É a resignação que torna o sujeito indiferente ao contínuo giro do mundo —muito embora as toupeiras gigantes, no caso do professor da aldeia, continuem aparecendo, sem que ele faça novos alertas.

O próprio Harras, o rival que surge em "O Vizinho", é outro Bartleby redivivo. A paranoia faz o protagonista acreditar que o vizinho ouve suas conversas, evita encontrá-lo e se adianta sorrateiramente para lhe roubar os clientes.

O telefone surge como elemento central da insegurança, o aparelho da espionagem —nada mais genial e visionário em tempos de NSA, quando toda a obsessão paranoica, a imensidão da culpa e a expectativa da punição tipicamente kafkianas encontram justificativas tão objetivas.

Em "O Guarda da Cripta", Kafka mostra que mesmo o príncipe vive ameaçado —e talvez pela própria princesa e seu fiel escudeiro. Embora soberano, ele se mostra incapaz de tomar decisões imperiosas e, por inexperiência, deseja democracia e diálogo num reino em que só a ordem autoritária funciona.

Sua conexão com o passado é somente o guarda da cripta, um velho que julga impotente, mas que, na realidade, parece se mostrar másculo na luta com os fantasmas do passado e na aparente relação incestuosa com sua neta.

DEUSES

Já o protagonista de "Posídon", insatisfeito com a gestão de um mar que não conhece, nem cogita buscar ajuda e muito menos aceitar outro emprego. Nada de tridente e soberania: o burocrata amargurado que ele é —e deve ter aquela "cor hemorroidal" dos funcionários de Gógol— se ocupa apenas de cálculos mesquinhos.

Quando ele finalmente busca ajuda de Júpiter, é rechaçado e parece um Josef K dos mares, que talvez tenha que esperar o fim do mundo —a aniquilação purgadora de tudo que existe, como tantos personagens de Kafka— para que um momento de tranquilidade lhe permita, enfim, um passeio pelas águas.

Posídon não é o único deus que sucumbiu em meio à burocracia. Em "O Novo Advogado", o poderoso Bucéfalo virou um rábula mergulhado contemplativa e singelamente em antigos alfarrábios, conformado —ele sabe que a espada de seu dono Alexandre da Macedônia não manda em mais nada.

Aliás, o Prometeu que já apareceu dilacerado em "O Abutre" é, no conto "Prometeu", mais uma divindade antiga banhada na luz fluorescente e derrisória da modernidade kafkiana. Pois ao final, apesar do mais divino esforço, restará sempre e apenas a rocha à qual um deus foi acorrentado.

Dessa forma, as narrativas de Kafka vão se entrecruzando com naturalidade chocante. O médico que o príncipe espera em "O Guarda da Cripta" pode ser o protagonista de "O Médico Rural". "O Vizinho" e "O Comerciante" são gêmeos no sentimento, e ambos parentes do comerciante de "O Casal". Seus heróis parecem o mesmo deus de mil faces de uma religião oriental.

Em sua adaptação cinematográfica de "A Metamorfose", o diretor russo Valeri Fokin tomou emprestada a cena inicial do conto "Blumfeld" —que mostra os cuidados rotineiros do protagonista neurótico obsessivo-compulsivo antes de se deitar— para ilustrar a noite que precede a transformação de Gregor Samsa em inseto monstruoso. Sim, pois o Blumfeld de hoje, apesar de mais velho, é o Samsa de amanhã.

Para Kafka, não há redenção. Nem para o deus dos mares infinitos, para o príncipe idealista ou para o melhor cavalo do mundo. Mesmo quando é campeão olímpico de natação, Kafka não sabe nadar.

Em "O Grande Nadador", ele alimenta o sonho infantil de ser campeão olímpico, mas, mais uma vez, contrapõe sua fantasia à cruel realidade da incapacidade de se adaptar ao mundo. O narrador imagina ser detentor do recorde mundial —e Kafka era um grande nadador—, mas, no fundo, não sabe nadar.

FRACASSO

Assim como seus personagens, Kafka sentia o medo constante de ser desmascarado e se antecipa ao ato. Dois meses depois de escrever o conto, ele anota em seu diário: "Sei nadar como os outros, só que tenho uma memória melhor do que os outros, e não esqueci o não-saber-nadar de outrora. Como não o esqueci, o saber-nadar em nada me ajuda, e eu, ao final, não sei nadar".

A impossibilidade em Kafka é sempre anterior, está dada desde o princípio e é mais duradoura que a possibilidade de tentativas posteriores, que fracassará sempre porque, no melhor dos casos, é adquirida. O fracasso é, pois, questão de precedência e primazia.

Os personagens de Kafka, sejam eles árvores, uma ponte fracassada ou crianças na estrada, vão confirmando a tese porque são vítimas de um enigma insolúvel: o da própria vida num mundo que não faz sentido.

Para ele, a busca de sentido pelos homens é também baldada porque nós, assim como os cães de "Investigações...", em nossa visão segmentada, deturpada e parcial do mundo, não reconhecemos o "deus" que explicaria nossas angústias.

Porém, ele parece também dizer que, se reconhecêssemos esse "deus", perderíamos o resto de liberdade que julgamos ainda restar. Ao conhecer tudo —a série "Black Mirror" manda lembranças—, estaríamos realmente perdidos.

E Kafka escreve o evangelho dessa perda, assinala o fim da picada. É o escritor do lusco-fusco, o poeta da penumbra, a literatura encarando seu próprio crepúsculo em fábulas sombrias e alegorias fatais.

Muito justo, aliás, terminar uma coletânea de Kafka com a frase que encerra seu único drama: "Dessa vez, o outono está mais triste do que nunca".

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MARCELO BACKES, 44, doutor em germanística e romanística pela Universidade de Freiburg (Alemanha), é autor dos romances "A Casa Cai" e "O Último Minuto" (Companhia das Letras).

Fonte: FOLHA

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