14 de janeiro de 2018 às 02:00

Grandes craques jogam como se estivessem vendo a partida da tribuna

Em ótima entrevista ao jornal "El País", Xavi, entre tantas sábias explicações, técnicas e táticas, disse que, no Barcelona, se aprende a dominar o espaço-tempo. Isso lembra as teorias de Einstein.

Em ótima entrevista ao jornal "El País", Xavi, entre tantas sábias explicações, técnicas e táticas, disse que, no Barcelona, se aprende a dominar o espaço-tempo. Isso lembra as teorias de Einstein.

Falou ainda que Casemiro, por não ter aprendido, nas categorias de base, não tem o talento, o domínio do espaço-tempo, como possui Busquets, mas que o volante brasileiro é melhor na proteção à defesa.

Penso que o domínio do espaço-tempo seja a capacidade de, em um curto espaço e em pouquíssimo tempo, mapear tudo o que está à volta, observar os movimentos dos companheiros e adversários, calcular a velocidade de todos e da bola e tomar decisões rápidas e corretas.

Como ele sabe tudo isso? Sabendo. Existe um conhecimento que antecede ao pensamento. Ele sabe, mas não sabe que sabe.

Grandes meio-campistas, como Xavi, Gérson, Kroos, Iniesta e outros, jogam como se estivessem vendo a partida da tribuna, com megacomputadores modernos instalados nos corpos. Suspiram lucidez e sabedoria.

A primeira vez em que joguei ao lado de Gérson e Pelé foi em um amistoso na Suécia. Eu tinha o hábito, no Cruzeiro, de atuar com apenas um toque. O talentoso e veloz Dirceu Lopes vinha de trás, passava por mim e recebia a bola na frente.

Quando terminou o primeiro tempo, mestre Gérson sentou-se ao meu lado e, entre um cigarro e outro, perguntou: "Dá para jogar com dois toques em vez de um, para dar tempo de eu chegar à frente"? Aprendi, para sempre, a fazer uma coisa ou outra, de acordo com o momento.

A seleção brasileira está forte para a Copa, mas terá também dificuldades.

Além da falta de um craque no meio-campo, que domine o espaço-tempo e que jogue entre Casemiro e Paulinho, os adversários vão explorar os espaços nas costas dos dois melhores laterais do mundo, especialmente na de Marcelo, que avança mais que Daniel Alves. Tite sabe disso, tanto que Renato Augusto tem jogado cada vez mais recuado e pela esquerda, para fazer a cobertura do lateral.

Se entrar William pela direita e Coutinho pelo centro, uma das alternativas de Tite, teria de sair Renato Augusto, o que enfraqueceria a marcação. A formação tática com apenas um volante, Casemiro ou Fernandinho, e dois meias ofensivos, Paulinho e Coutinho, é parecida com a do Manchester City. Mas, para funcionar bem, o Brasil teria de pressionar durante toda a partida, como faz o City, para tentar recuperar a bola rapidamente e evitar os contra-ataques.

Coutinho, quando joga pela direita, se desloca muito para o centro, para ser o meia armador e receber a bola entre os volantes e os zagueiros. Porém, contra defesas organizadas, como no recente amistoso contra a Inglaterra, ele não encontrou espaços, e o time ficou muito embolado pelo meio, ainda mais que Neymar, cada vez mais, quer jogar pelo centro, para ter mais a bola e ser o dono do jogo.

Tite tem várias opções. Todas têm vantagens e desvantagens. Futebol não é só planejamento. É preciso também tomar decisões rápidas, corretas e no momento certo.

Um dos trunfos da seleção na Copa deve ser a reparação. A comissão técnica e os jogadores, presentes ou não no Mundial de 2014, querem reparar o vexame. A reparação é um sentimento habitual e importante na vida humana. Foi um entre tantos motivos da inesquecível conquista da Copa de 1970, após o estrondoso fracasso de 1966.

Fonte: FOLHA

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