29 de novembro de 2017 às 10:31

Era Outra Vez: Douglas Diegues prepara livro em portunhol para crianças

Na fronteira do Brasil com o Paraguai, um sapo de All Star parece um daqueles "cinquentones" que usam "solamente roupas de adolescente". Um "catchorrinho" assustado late sem parar para o seu reflexo em "espejos sucios". E "macacos voladores" adoram comer

Na fronteira do Brasil com o Paraguai, um sapo de All Star parece um daqueles “cinquentones” que usam “solamente roupas de adolescente”. Um “catchorrinho” assustado late sem parar para o seu reflexo em “espejos sucios”. E “macacos voladores” adoram comer “guayaba”.

É nessa região, com limites imprecisos e onde o idioma é uma mistura de português, espanhol e guarani, que o escritor Douglas Diegues pinçou personagens que compõem o seu primeiro livro infantil, todo escrito em “portunhol selvagem”. “Selvagem porque não é domesticado. Ele incorpora as três línguas da fronteira, mas também pode usar o italiano, o japonês e até idiomas extraterrestres”, diz.

“Era Uma Vez na Fronteira Selvagem” reúne seis contos escritos pelo autor, que é carioca mas foi morar no Mato Grosso do Sul (na foto acima, aparece com um garoto indígena na fronteira). “Ouvi essas histórias de chineses, coreanos, japoneses, taiwaneses, paraguaios, brasileiros, bolivianos. Lá é um lugar onde ninguém pede o seu passaporte”, diz.

Diegues é conhecido desde o início dos anos 2000 por escrever em portunhol. Seu livro “Dá Gusto Andar Desnudo por Estas Selvas – Sonetos Salvajes” é de 2002. Quatro anos depois, ajudou a organizar o primeiro (e único) Encontro Interfronteiras do Portunhol Selvagem, em Assunção, que recebeu nomes como Joca Reiners Terron e Ronaldo Bressane. Neste ano, lançou “Triple Frontera Dreams” pela argentina interZona.

Mas, ao contrário de Manoel de Barros (1916-2014), que também vivia no Mato Grosso do Sul e tinha um mundo poético que conversava com a natureza da região, o escritor nunca teve seus trabalhos vinculados ao público infantil. “Falam que só escrevo sobre sexo, escatologia. Queria dividir a fronteira também com as crianças, levar para elas uma literatura que vai além de um mundo monolíngue”, conta.

O resultado é visto em histórias de animais e seres mágicos que parecem saídos da literatura fantástica. E que levantam duas questões principais: Será que crianças e escolas vão entender o portunhol e lidar bem com palavrões e algumas referências que o autor insere no texto?

Sobre a primeira, Diegues tem uma resposta rápida. “Quando me questionam se o leitor vai entender, pergunto: será que ele não vai entender? Aposto que a criança vai se divertir mais do que o adulto. Elas têm um ouvido mais livre, uma visão menos contaminada.” 

Mas não foi essa a primeira conclusão do escritor. Ao iniciar a preparação do livro, decidiu que deveria escrevê-lo em português. “Quando percebi que muitas frases estavam contaminadas pelo portunhol, recomecei e reescrevi tudo”, afirma. No fim dos contos, um glossário explica termos em guarani.

Nessa reescrita, as narrativas passaram a fugir de uma visão extremamente protetora ou idealizada da infância. O sapo de All Star, por exemplo, diz que fora do poço onde ele mora “non existe puerra ninguma”. Já o capítulo sobre o Cine Guaraní conta que no espaço acontece um “cine porno para mayores de 18 años, todas las noches”.

“Não faço o jogo certinho, seja no tema ou na linguagem. Costumam subestimar a inteligência da criança em relação ao que chamam de politicamente incorreto. Escrevi sem censura, sem qualquer falso moralismo.”

O autor diz saber que a decisão pode dificultar a procura por uma editora. Não apenas pelos temas, mas também pela ortografia. Vale lembrar que, em 2011, o livro “Por Uma Vida Melhor” (Global) gerou polêmica ao ser distribuído pelo MEC (Ministério da Educação) e supostamente defender erros de concordância. “Editoras têm posturas covardes por questões mercadológicas. Mas ainda há editores corajosos por aí, principalmente entre os menores e mais independentes”, acredita.

Ainda não há contratos para publicação nem escolha do ilustrador. Caso não encontre casas interessadas, provavelmente lançará as histórias por cartoneras –que produzem edições artesanais, geralmente com capas customizadas em papelão reaproveitado.

Uma coisa é certa: o livro deverá sair no ano que vem e não virá com o selo que atesta o cumprimento do novo acordo ortográfico. “Isso é uma baboseira. A gramática é inimiga da poesia.”

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Fonte: FOLHA

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