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13 de junho de 2018 às 16:33

Enfraquecido, Temer ressuscita poder do quepe

Tratado inicialmente como mais uma trapalhada do governo, o slogan "O Brasil voltou, 20 anos em 2" vai se revelando uma confissão disfarçada pela vírgula. No seu mais recente retrocesso, Michel Temer efetivou o general Joaquim Silva e Luna no posto de ministro da Defesa. Parece uma decisão banal. Mas não é. Com uma única canetada, o pseudo-presidente atrasou o relógio em quase duas décadas.

Em 1999, ao abolir o status ministerial dos comandos militares, submetendo Exército, Marinha e Aeronáutica à autoridade de um ministro civil da Defesa, o então presidente tucano Fernando Henrique Cardoso inaugurou, por assim dizer, a fase adulta da democracia brasileira. O papel das Forças Armadas na vida do país foi estrategicamente redimensionado.

Temer iniciara seu governo preservando a nova tradição. Acomodara na chefia da pasta da Defesa o ex-comunista Raul Jungmann. A coisa caminhava bem. De repente, o inquilino do Planalto rendeu-se a duas tentações marqueteiras. Numa, executou o "golpe de mestre" de decretar uma intervenção verde-oliva na segurança do Rio de Janeiro. Noutra, transferiu Jungmann para uma nova pasta da Segurança Pública.

Desafiada pelo assassinato da vereadora Marielle Franco, a intervenção perdeu a serventia eleitoral que a inspirou. E Jungmannn, que realizava um bom trabalho na Defesa, virou um ministro cenográfico da Segurança Pública. Por ora, a realização mais notável do governo nessa área foi a criação de uma crise. A nova pasta da Segurança disputa com os ministérios do Esporte e da Cultura migalhas orçamentárias extraídas dos bolsos mais humildes do país por meio das loterias.

Para complicar, Temer decidiu efetivar no comando da Defesa o general que respondia interinamente pelo ministério desde fevereiro. Para complicar um pouco mais, a providência foi adotada num instante em que o Datafolha informa que o prestígio do presidente chegou às fronteiras da margem de erro das pesquisas: Temer é aprovado por 3% dos brasileiros.

A taxa de reprovação de Temer escalou a inédita marca de 82%. Na mesma pesquisa, 78% dos entrevistados disseram confiar muito (37%) ou pelo menos um pouco (41%) nas Forças Armadas. É como se um presidente fraco desejasse atenuar seu desprestígio recorde escorando-se no prestígio que ainda resta aos militares.

Tudo isso ocorre num instante em que um ex-capitão do Exército frequenta a cena política como opção paleolítica de poder. E um pedaço da sociedade pede a volta dos militares, sem se dar conta de que, sob Temer, eles já estão em toda parte: na segurança do Rio, nas operações de manutenção da lei e da ordem em vários Estados, nas inspeções em presídios, pilotando caminhões e postos de chefia espalhados da Funai até a Casa Civil da Presidência…

No governo Temer, o que era eventual tornou-se corriqueiro. O suposto presidente alcançou a façanha de ressuscitar o poder do quepe, devolvendo a democracia brasileira à sua fase da infância institucional. A grande sorte do Brasil é que os militares --essa entidade meio abstrata que Temer se esforça para tornar real-- evoluíram. Noutros tempos, o quepe era visto como uma ameaça. Hoje, a cúpula militar informa que, por mais que empurrem, as Forças Armadas não aceitam ultrapassar os limites da Constituição.

Fonte: UOL

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