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14 de janeiro de 2018 às 02:00

Coleção de livros de bolso fundada há 150 anos na Alemanha ganha mostra

A mais antiga série de livros de bolso da Alemanha acaba de comemorar 150 anos. Lançada em novembro de 1867, a "Universal-Bibliothek" (UB), da editora Reclam, já vendeu 600 milhões dos seus livrinhos amarelos com clássicos da literatura de ficção alemã e

A mais antiga série de livros de bolso da Alemanha acaba de comemorar 150 anos. Lançada em novembro de 1867, a "Universal-Bibliothek" (UB), da editora Reclam, já vendeu 600 milhões dos seus livrinhos amarelos com clássicos da literatura de ficção alemã e estrangeira, filosofia, artes e música.

Conhecidos como "Reclam-Hefte" (cadernos da Reclam), essas edições em formato pequeno (14,7 x 9,5 cm) sempre foram consumidas tanto por especialistas como por leigos, tornando-se uma marca na Alemanha.

Isso porque seus 3.500 títulos são extremamente baratos, apesar de as edições serem ricas em comentários e análises. O mais em conta, "Kleider machen Leute" (o traje faz o homem), do escritor suíço Gottfried Keller (1819-1890), custa € 1,60, algo em torno de R$ 6.

Algumas obras de Friedrich Schiller (1759-1805), como "Guilherme Tell" e "Os Bandoleiros", custam quase o dobro, mas o autor alemão é, ainda assim, o best-seller da série, com mais de 12 milhões de exemplares vendidos.

Além dos clássicos, a UB traz outras coleções, como a de língua estrangeira (capa vermelha), as edições em duas línguas (laranja) e as de interpretações de texto (verde), particularmente apreciadas por colegiais em véspera de prova.

Novidade é a série "Cem Páginas", cujos livros podem ser lidos em cem minutos e abordam os mais variados temas: do poeta romano Ovídio a David Bowie, passando por Che Guevara e Asterix.

HISTÓRIA

A sede da Reclam fica hoje perto de Stuttgart, no sul da Alemanha. Mas é no leste, em Leipzig —onde a editora foi fundada—, onde acontece até junho, no Museu do Livro da Biblioteca Nacional, uma exposição sobre a história dos cadernos.

Os primeiros volumes publicados foram as partes 1 e 2 de "Fausto", de Goethe (1749-1832), cada um com tiragem de 5.000 exemplares —enorme para a época. Os livros se esgotaram em poucas semanas, atendendo ao objetivo do editor, Anton Philipp Reclam, de abastecer um público amplo com literatura.

Durante a Primeira Guerra Mundial, a Reclam criou para os soldados "bibliotecas portáteis de campanha" —caixas de madeira com cem títulos cada, distribuídas pelo fronte. Já durante o nazismo, autores judeus e críticos de Adolf Hitler foram excluídos do programa, voltando a ser editados só depois da Segunda Guerra.

AMIZADE

"Pensando em Extremos" é o título da exposição sobre a amizade entre o poeta e dramaturgo Bertolt Brecht (1898-1956) e o filósofo e crítico Walter Benjamin (1892-1940). em cartaz até o final do mês na Academia das Artes, em Berlim.

Os dois se conheceram nos anos 1920 (mais por insistência de Benjamin do que de Brecht), mas a relação se intensificou a partir de 1933, quando ambos foram para o exílio. Benjamin visitava Brecht na Dinamarca e escrevia críticas sobre a obra do amigo —elas estão reunidas no livro "Ensaios sobre Brecht", publicado no Brasil no ano passado pela Boitempo.

A mostra traz fotos, gravações, filmes e objetos, como o tabuleiro de xadrez diante do qual os amigos costumavam passar horas. Mas o mais importante são os textos: cartas, rascunhos e registros de diário que mostram não apenas a proximidade entre os dois autores —que elaboraram planos para um romance policial comum e para uma revista cultural—, mas também seus conflitos.

Ambos divergiam, por exemplo, sobre Franz Kafka (1883-1924) —mistificado demais por Benjamin, segundo o amigo— e Baudelaire (1821-1867) —que o dramaturgo considerava um poeta pequeno-burguês. A exposição também sugere a atualidade de uma questão que norteou o debate entre os dois alemães: o papel dos intelectuais em tempos de crise.

BURLESCO

Daniel Kehlmann, um dos grandes nomes da literatura alemã atual, acaba de publicar mais um best-seller festejado pela crítica.

O autor ficou conhecido internacionalmente por seu romance "A Medida do Mundo" (Companhia das Letras, 2007), que traz a história do naturalista Alexander von Humboldt e do matemático Carl Friedrich Gauss.

Seu novo livro, "Tyll", é uma mistura de romance histórico e burlesco, que transporta para a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) a figura lendária do malandro Till Eulenspiegel, que viveu supostamente no século 14.

O personagem de Kehlmann, Tyll Ulenspiegel —escrito assim, de forma diferente do original—, é um saltimbanco provocador, que em cada capítulo aparece em um lugar. Mas não se trata de uma biografia: há capítulos inteiros em que ele nem aparece, transformando os demais personagens em coprotagonistas. Como pano de fundo, uma Alemanha arrasada pela peste e por uma guerra sangrenta.

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SILVIA BITTENCOURT, 52, jornalista, é autora de "A Cozinha Venenosa" (Três Estrelas).

Fonte: FOLHA

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