14 de janeiro de 2018 às 02:00

A vez da Coreia

Toda comida é esquisita, da primeira vez. Lembro quando conheci o sashimi, foi preciso coragem, colocar peixe cru na boca, ficar ali sem saber bem se mastigava, que gosto procurar, o que era aquilo? Estou gostando? Estava e nunca mais deixei de comer. Hoj

Toda comida é esquisita, da primeira vez. Lembro quando conheci o sashimi, foi preciso coragem, colocar peixe cru na boca, ficar ali sem saber bem se mastigava, que gosto procurar, o que era aquilo? Estou gostando? Estava e nunca mais deixei de comer. Hoje, décadas depois, sushi e sashimi são tão triviais na minha vida (e na brasileira) quanto um prato feito. Há rodízio, delivery, invenções e atrevimentos.

A comida chinesa estilo caixinha foi mais simples de aceitar, bem ocidentalizada, mais adaptada ao gosto americano do que à vasta e rica culinária da China. Era sonho de consumo do cinema, via as pessoas comendo direto na embalagem em filmes, parecia bom. Sou de outra época. Nem havia chegado isso aqui.

Virou uma coisa sem graça, fast-food no lado trash e, felizmente, as novas casas com receitas não ocidentalizadas estão aparecendo e vou tentando prová-las com curiosidade e um medinho infantil permanentes, apreciando o renascimento da comida chinesa na cidade.

E a Coreia? Moro no que era o mais coreano dos bairros paulistanos, com restaurantes tradicionais e bem estabelecidos, com clientela fiel. Já fiz uma coluna sobre o assunto, a curiosidade não acabou. A comida coreana se expande, começa a sair do seu público cativo e vai atingindo outros sabores e se popularizando.

Não é só aquele churrasco feito na mesa.Nem sou fã dele. Gosto de cozinhar, mas não de ser obrigado a trabalhar no restaurante.

Meu atual xodó fica na Liberdade, chama Portal da Coreia. O bibimbap (um arroz festivo com montes de coisinhas, de cogumelos a carne e ovo) é tão bom que comi até o vegetariano. E o bulgogi (uma carne de boi desfiada, marinada num molho agridoce suculento) virou minha comida de emergência, porque resolve o apetite e oferece a variedade para o dia em que a pizza não atende o anseio por múltiplos sabores. O bulgogi é meu prato reconfortante atual -quem pensaria que uma frase dessas seria escrita?

Mas há muita Coreia por percorrer, basta uma palavra "kimchi" e já começa o problema. Considerada comida desafiante, descrita com certo horror pelos mais sensíveis ("tem cheiro azedo", "é picante demais") não passa de uma excelente conserva. Eu acabei de chegar do México, então falar em desafios alimentares é risível.

Andei lendo o mexicano Octavio Paz, prêmio Nobel de literatura em 1990, e catei uma expressão que não me larga: barroco existencial. Ele fala da sociedade mexicana como sendo assim. Barroca dentro da cabeça, o que se revela na mesa: de tão poucas coisas -pimentas, milho- cria-se banquete. A variedade delas é por repetição modificada e não por oferta infindável.

Parei, não vou encher o domingo de ninguém com teorias. Mas vi na mesa coreana, lotada de potinhos misteriosos, um reflexo dessa luxúria com poucos elementos, que a aproxima do México. E o uso do picante como cor, para dar vivacidade. A cozinha coreana usa a acidez e a picância em contraponto com o doce como usamos o sal, ali está sua alma.


R. da Glória, 729, Liberdade, tel. 3271-0924. Quando: seg. a sex., das 12h às 14h30 e das 18h às 22h; sáb., das 12h às 15h e das 18h às 22h

FORA DO CALDEIRÃO

O livrão mais consultado, o "Oxford Companion to Food", me dá um puxão de orelhas. A cozinha coreana não deve ser vista dentro de um caldeirão onde coloco a Ásia indistintamente. Ela é muito antiga, muito sofisticada, com três reinos já no tempo de Cristo e uma elaborada etiqueta palaciana, banquetes longos e complexos.

Ainda hoje tudo se baseia nos cinco sabores, como a cozinha japonesa, e no equilíbrio de cinco cores. O que mais gostei foi de saber que os jantares comemorativos mais importantes são os do sexagésimo primeiro aniversário das pessoas, pois é a vitória sobre a morte. Já comecei a pensar no meu, se o planeta sobreviver até lá.

O kimchi, presente em todas as refeições, é feito em casa, de preferência, com acelga como base e deixado fermentar. É uma conserva indispensável no país, suprindo a falta de legumes frescos nos meses de inverno, mas virou tradição.

O do Portal da Coreia é muito bom.

ALGUMA UTILIDADE

Para beber com essa comida, eu acho que saquê é melhor, mas finalmente vejo alguma utilidade para os rosés. Lembrei do que dizia Kurt Vonnegut sobre o ponto e vírgula, que era uma pontuação meio inútil e mal resolvida. Os rosés também são (claro, há o Tondonia Rosado, o Château Musar, mas a maioria é uma água geladinha bem sem graça).

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Vinhos da semana
La Flor de Pulenta Rosé, na Grand Cru (R$ 63,20)
Quinta da Alorna Rosé, na Adega Alentejana (R$ 71,06)
Cortes de Cima Rosé, na Adega Alentejana (R$ 92,62)
Musar Jeune Rosé, na Mistral (R$ 166,99)

Fonte: FOLHA

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